Ontem de noite, na Terra

Ah a Lua é tão grande, tão grande, que pesa no estômago. O anoitecer é tão luxuoso, majestoso de doer os olhos. E então a Lua pesa...

O caminho que seguíamos, aclarado pela escuridão das nuvens negras e assustadoras, era calmo tanto quanto o balanço da rede. Andávamos juntos e separados, caminhávamos apressada e lentamente, corríamos exagerada e docemente.

Eu carecia de lembrá-lo de toda a culpa invisível que está preste a desmoronar nos teus ombros, acanhados e anêmicos. Mas eu preciso ser cruel, saudosa demais. Em outra vida quiçá eu te faça ficar para tomar uma última, e vagarosa, xícara de café...

Você não queria estar aqui? Ceder todo o infortúnio uma vez começado, deixar ratos/lagartos/carrapatos e todos os erros de lado. Não se obrigar a ecoar o clichê a cada sopro de um vento traidor. AH CÉUS! Que ser estúpido e falso esse o teu! Você não queria estar aqui? Cruzar milhões de quilômetros e se juntar à minha parede inacabada. Compartilhar a rachadura do sofá, repartir a cama quebrada e dividir os meios sorrisos. Ontem não precisa acabar hoje, o faremos eterno... EU o farei eterno.

Mas quando a gente tem que sentir, a gente sente demais. E então percebe que a nossa lua é a que mais pesa, que o nosso mundo é o que mais gira, que a nossa dor é a que mais dói e que o nosso amor é o mais infindável.

Aprendi que a gente fecha os olhos para muito depois alguém abri-los com toda delicadeza. Mas enquanto a gente dorme, é o sono mais profundo e cruciante. É um sonho frio e solitário. É um descanso triste e imortal.

Logo, os quatro relógios da casa me advertem de que a nossa hora ainda não há de estar aqui… E os meus olhos lamentam ao perceber. A cada passo, a cada inspiração, a cada piscar de olhos, a cada nascer do sol. Meus olhos choram por estarem tão cansados de chorar. Meu peito grita por estar farto de amar. Minha mente gira com tanta preguiça de pensar.

A promessa de não escrever sobre nós, faliu. Joguei todos os papéis fora, mas minhas mãos me desobedecem e picham as revistas, batucam o teclado, riscam as paredes e arranham as portas, gravando nós em todo canto deste lugar. Para eu te ver em tudo, até onde a vista alcança.

A lua pesa, nas costas, nos pés, nos braços, em um abraço, no colo. A lua pesa, por engordar a cada lágrima que eu deixo fugir. Deus quis que eu constituísse em ser sua dona, mas ela usa de todo o gênio. Aparecendo quando quer, brilhando hoje e morrendo amanhã. Às vezes se banhando do dia, me fazendo infeliz. Lua, eu te quero por estar destinada à ti, mas desejo jogar-te nos braços de um outro alguém.

Oh Pai, quando eu irei de escrever ao mundo que estou satisfeita com a vida? Ai de ser eu como a grama em meus pés, que cortam antes mesmo de crescer...?

"Apesar dos ventos não serem favoráveis, eu coloco meu barquinho no mar. Eu coloco e vou seguindo, vencendo ondas, vencendo rochedos, vencendo abismos. Vou com meu barquinho pelas tempestades e sei que encontrarei um porto sereno com seu sorriso na praia a me esperar."

Thainá Seabra

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