Meu eu verdadeiro é uma farsa

Fogueira à mim?

Amor, eu que te enganei, eu que te iludi, eu que menti empregando todas essas palavras... Amor, eu que tricotei meu outro eu, eu que me desfiz de mim, eu que ensaiei todas essas palavras... Amor, eu que pequei, eu que conspurquei uns versos malfeitos, eu que rabisquei todas essas palavras... Amor, eu cometi um crime?

Apesar de tão vão, há pesar de mim em ti, ainda que nem mesmo eu acredite que possa compreender... Apesar de pesar tanto a consciência, será que seguirei escrevendo tanto quanto antes de te confidenciar minha ordinária vida de trapaceadora? Por simular todo esse tempo que sinto o que escrevo, que escrevo o que sinto... Mas então tu descobres que eu, desgraçada como sou, apanho as insuficientes e singelas palavras que me vem não tão facilmente, para fazê-las minha ganha.

Para não criar vínculos afetuosos ou compromissos com a morte, com um peso no estômago. Hei de sacar meu coração e dar ao fulano da calçada, apenas para registrar em um caderninho: “ó vida cruel...”? Hei de suar a nuca arrazoando os futuros embolados no meio de tantas flores de Dia dos Não-Sei-o-Que? Matando-me de secura, encarcerada em um ninho, que aqui nos meus parágrafos dito como inferno? Amor, não sou tola e sim criminosa...

Não penses, meu anjo, que eu anseio amar um dia. Como se o tolo e estúpido amor não calhasse de ser boias aos náufragos... Como se a metade da laranja não fosse apenas dois corpos despidos compartilhando um café da manhã ruim... Como se seus pensamentos não durassem somente por não ter dignidade em sua estante. E duas taças de vinho se transformam em milhares, as noites de sextas se corroem nos dias que passo tacando os dedos na encanecida máquina de escrever e os badalados beijos permanecerem sendo dados em umas barbas quaisquer (que nojo)...

Ah, amor, eu menti... Mas quem nunca se enganou que me atire seu braço! Que me jogue à pira ardente! Dói-me além disso, isso sinto por demais, saber que tua mente entendia que meu amor te dizia respeito... Tenho apenas dó do teu coração que de tão bom se tornou sofredor. E eu de tão má deveria morrer congelada no meio de tanta frieza em minh’alma.

Mas te explico ainda, se é que ainda não expliquei, que me privo dos dramas covardes... Por alguma razão, forças do Além vos forçam a passar, que faz doer os ossos de tanto se contorcer na cama com dor em um coração imaginário de um amor que foi inventado. A pobre foi deixada gélida depois de partir. Não sinto o amor e antes de mesmo de senti-lo, eu sinto medo por saber com todas essas minhas suspeitas que um dia tu serás o meu amor.

E não abandonando clareza, mais uma vez... Que me bombardeiem por mentir em minhas cartas ao findá-las escrevendo “Com todo o amor... Eu.” !

Thainá Seabra

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